segunda-feira, 25 de junho de 2007

Acres de Oportunidade

Por Tom Phillips

Embora em escala mundial a agricultura e, em especial, o desmatamento, contribua para o grande problema do aquecimento global, nos EUA a agricultura é responsável somente por sete por cento das emissões de poluentes que armazenam calor. Ainda mais importante é notar que, porque a indústria tem enorme capacidade de absorver gases que causam aquecimento, este é um setor que tem em mãos uma oportunidade única de compensar sua própria emissão e ainda a de outras indústrias. Se fazendeiros e pecuaristas, por livre e espontânea vontade, decidirem mudar algumas de suas práticas, eles poderão entrar em um novo mercado, o de carbono, ao mesmo tempo em que aprimoram a qualidade do solo e da água.
Plantas e árvores adoram CO 2 . É por isso que conversar com seus vasos funciona mesmo— o CO 2 que exalamos é fundamental para o desenvolvimento das plantas. Em escala maior, à medida que crescem, as plantas e árvores absorvem CO 2 da atmosfera através da fotossíntese enquanto armazenam carbono na madeira, folhas, raízes e até no solo.
Acontece que ao mesmo tempo em que o CO 2 pode ser benéfico para a vida das plantas, ele coloca em risco o clima da Terra. O que tem acontecido desde a Revolução Industrial a partir da metade dos 1700 é que o equilíbrio natural do carbono da Terra (entre o que é estocado na Terra na forma de material orgânico morto e o que é liberado para a atmosfera, através da fotossíntese) foi por água abaixo. Nós estamos liberando demais e retendo muito pouco. E é aí que a agricultura pode ajudar. Fazendeiros, o pessoal que lida com reflorestamento e outras pessoas que trabalham com a terra estão diante de fantásticas possibilidades de diminuir o ritmo do aquecimento global.
Problemas e oportunidades ligados à mudança climática
Os fazendeiros dos EUA têm muito a perder com o aquecimento global. Em sua edição de 11 de Janeiro de 2006, o Farm Journal apontou que as "Mudanças climáticas afetam todos os aspectos da produção nas fazendas".
O aquecimento global deve trazer mais secas na região conhecida como o Cinturão do Milho nos EUA, além de mais pragas e doenças em toda parte. A recente seca que durou seis anos e que foi seguida por chuvas torrenciais no Oeste daquele país dão uma amostra do que um planeta mais quente pode trazer para os produtores norte-americanos. Alguns fazendeiros podem até se beneficiar com as mudanças, por exemplo, com a “colheita dupla— que é a capacidade de colher duas vezes no mesmo ano — e que pode se tornar realidade em algumas áreas dos EUA. Mas, na ponta do lápis, as perdas serão muito maiores que os ganhos”.
A verdadeira oportunidade de negócio para o ramo está é nas tecnologias e técnicas que podem reduzir as emissões de calor. Isso inclui usar, produzir e expandir o consumo de energias renováveis, aumentando a eficiência desse uso e ainda estocando mais carbono no solo. À medida que negócios e políticas governamentais passem a oferecer incentivos econômicos para o armazenamento do gás que causa o aquecimento global, os fazendeiros que adotarem estas novas práticas estarão diante de um mercado totalmente novo e serão pagos por mercados privados em função do modo como eles trabalham na terra, além, é claro, do pagamento tradicional, pelo produto em si.
Saída contra emissões de gases nos campos
Nos EUA, a atividade agrícola moderna depende e muito do uso de equipamentos movido a gasolina. São tratores, colheitadeiras e outras máquinas; todas elas produtoras de CO 2 . Mesmo assim, o CO 2 é apenas a terceira fonte de emissão de gases que provocam o aquecimento do planeta nesse setor. Os maiores emissores são, na verdade, o óxido nitroso e o metano. Estes dois gases são liberados em pequena quantidade, mas eles são, na verdade, muito eficientes quando o assunto é aquecer o planeta. Portanto, tonelada por tonelada, a redução das emissões de metano e óxido nitroso tem grande efeito sobre a atmosfera.
O óxido nitroso permanece na atmosfera por cerca de 120 anos e consegue armazenar calor de modo 300 vezes mais eficiente que o dióxido de carbono. Ele é produzido pela interação do solo com o nitrogênio usado como fertilizante. Ao usar menos fertilizante desse tipo, o homem do campo pode cortar as emissões e ainda manter seus custos baixos. Um melhor gerenciamento do fertilizante que usam significa ainda que menos nutrientes do solo serão carregados pelos lençóis subterrâneos de água ou por águas na superfície do solo.

Dejetos animais viram energia
O metano é liberado principalmente do esterco e das fezes dos animais e fica na atmosfera por cerca de dez anos, enquanto é 20 vezes mais eficiente que o CO 2 , quando o assunto é reter calor. Um mercado de carbono pagaria um bom dinheiro por este tipo de redução.
Tampar poços de esterco e mudar a alimentação dos rebanhos pode reduzir o volume de metano produzido e ainda abrir as portas de um mercado novo para os criadores de animais. Grandes produtores podem converter o esterco em fonte de energia. Digestores anaeróbicos usam calor e bactérias para comer o esterco; aí eles capturam e queimam o metano como fonte de energia. Esse processo é conhecido desde a década de 1920 e ganhou força na Europa quando o petróleo ficou escasso durante a Segunda Grande Guerra. Na última década, o processo vem ganhando vida nova.
A empresa Holsum Dairies, em Hilbert, Wisconsin, EUA, usa este processo como fonte de energia para sua fazenda que conta com 3.700 cabeças de gado. E é tanta energia que eles fabricam que ainda lucram vendendo o excesso para a empresa local de eletricidade. Os resíduos inodoros desse processo são depois usados como fertilizante, no caso da porção líquida, e ainda como forração para o local onde os animais dormem, no caso dos dejetos sólidos.
Após cortar a emissão de metano e óxido nitroso e começar a produzir eletricidade a partir do metano, algumas fazendas passaram a vender créditos pela redução de emissão para empresas e indivíduos que querem cortar seus níveis de poluição. (Saiba mais sobre compensação de carbono.)
"Plantando" energia
Biocombustíveis são dejetos de animais e restos de plantas que podem ser queimados para produzir energia ou que podem ser usados como combustíveis. Por exemplo, o etanol, o muito discutido biocombustível feito a partir do milho e de outras plantas e que substitui a gasolina. Ou o combustível feito de soja e que substitui o diesel. Embora a produção de biocombustível libere dióxido de carbono na atmosfera, seu efeito ainda é melhor que o da queima de carvão ou de outros combustíveis fósseis, dependendo do modo de produção.
A queima de combustíveis fósseis libera o carbono que estava armazenado na terra por milênios, enquanto a queima de plantas libera o CO 2 absorvido apenas durante a fase de crescimento daquela planta. Por outro lado, gases que conservam o calor são liberados também durante o cultivo e a produção do biocombustível. Por isso, um fator importante na hora de determinar a eficiência do biocombustível é a eficiência energética do seu modo de produção. Isso inclui o uso de tratores e outros equipamentos na produção, passa pelo uso de pesticidas e fertilizantes até a conversão do material em combustível e ainda o transporte do produto. Aprimorar o uso da terra através da adoção de práticas sustentáveis como a de não usar arados e o aumento da eficiência energética na hora da produção do biocombustível pode fazer deste produto uma opção ainda muito mais efetiva na redução da poluição que causa o aquecimento global.
As fazendas podem virar grandes armazéns de CO 2
Se manuseadas de modo correto, florestas e fazendas podem estocar uma grande quantidade de carbono. Revolver a terra e desmatar para plantar e abrir estradas libera CO 2 no ar. Mas se reduzirmos a perturbação do solo, se conservarmos e plantarmos mais florestas, se restaurarmos as áreas de vegetação rasteira, tudo isso nos ajudará a remover CO 2 da atmosfera. Pois o uso desta capacidade de armazenamento é muitas vezes chamado de "seqüestro de carbono".
As fazendas podem lucrar absorvendo carbono no seu solo. Por exemplo, a Pacific Northwest Direct Seed Association, que representa 300 fazendeiros de Washington, Oregon e Idaho nos EUA e que soma cerca de meio milhão de hectares de terra, fez uma parceria com a Entergy, uma companhia de energia baseada em Louisiana. A parceria promove a plantação das sementes sem revolver o solo, o que evita a liberação de carbono e traz ainda outros benefícios: o solo ganha em produtividade, a erosão diminui e a qualidade da área enquanto habitat para a vida selvagem melhora. Ao mesmo tempo, os fazendeiros ganham dinheiro ao mudar seu sistema para o de sementes diretas -- a Entergy vai alugar 30.000 toneladas em “compensação de carbono” deles por um período de dez anos.

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